Viagra, Cialis e a pressa por performance: o que está por trás do uso recreativo de estimulantes sexuais entre jovens


Nos últimos meses, um comportamento tem chamado a atenção de médicos, psicólogos e pesquisadores brasileiros: homens cada vez mais jovens, muitos deles sem qualquer diagnóstico de disfunção erétil, recorrendo a medicamentos como sildenafila (Viagra) e tadalafila (Cialis) por conta própria, não para tratar um problema, mas para "garantir" um bom desempenho sexual, ou até como um suposto potencializador para ir à academia.
Nas redes sociais, a tadalafila já ganhou até apelido: "tadala". Aparece em vídeos que prometem uma ereção mais rígida, mais resistência, mais confiança. O problema é que essa promessa não tem respaldo científico quando falamos de homens jovens e saudáveis e o que existe por trás desse fenômeno é bem mais complexo, e bem mais humano, do que uma simples pílula.
Como psicóloga e sexóloga, recebo esse assunto no consultório com frequência crescente. E acho importante trazer para cá, de forma honesta e sem alarmismo, o que a ciência já sabe sobre isso e, principalmente, o que costuma estar por trás dessa busca.
Um fenômeno que tem nome: a "medicalização" da performance sexual
Existe um conceito, discutido tanto na área da saúde quanto nas ciências humanas, chamado de medicalização. O termo descreve o momento em que uma questão da vida, que pode ter raízes emocionais, relacionais ou culturais, passa a ser tratada exclusivamente como um problema médico, resolvível com um remédio ou um procedimento.
Com a sexualidade masculina, isso tem acontecido de um jeito bastante específico. Uma revisão recente da literatura científica brasileira e internacional, publicada em 2026 na revista Asklepion, reuniu dezenas de estudos sobre o tema e chegou a uma conclusão que resume bem esse momento: a busca por performance sexual entre homens de 18 a 30 anos está cada vez mais dissociada de informação confiável, e cada vez mais alimentada por conteúdos informais que circulam em grupos, fóruns e redes sociais.
Ou seja: o jovem que sente insegurança sobre seu desempenho na cama não costuma procurar um profissional de saúde para entender o que está acontecendo. Ele procura um vídeo, um comentário, um amigo que "usa e funciona". E é aí que mora o risco, não necessariamente no medicamento em si, mas na forma desinformada como ele chega até essas pessoas.
O que esses medicamentos realmente fazem (e o que não fazem)
Vale explicar isso com clareza, porque é justamente aqui que a desinformação se instala.
Sildenafila e tadalafila são inibidores de uma enzima chamada fosfodiesterase tipo 5. Na prática, eles relaxam os vasos sanguíneos do pênis e aumentam o fluxo de sangue para os corpos cavernosos, facilitando uma ereção mais firme, mas apenas quando existe algum grau de disfunção erétil de origem física ou vascular. Em homens jovens sem esse tipo de problema, o organismo já responde normalmente ao estímulo sexual; não há, portanto, um "ganho extra" real a se esperar do medicamento.
A Sociedade Brasileira de Urologia já se posicionou publicamente sobre isso: a sensação de "inchaço" ou maior rigidez relatada por alguns usuários recreativos tende a ser um efeito passageiro de vasodilatação periférica, somado a um forte componente de efeito placebo. Em outras palavras, para quem não tem indicação clínica, o benefício percebido costuma ser mais psicológico do que fisiológico.
Isso não significa que o efeito seja "só imaginação". A mente tem um peso real na resposta sexual, e sentir-se mais seguro pode, sim, melhorar a experiência. O ponto é outro: se a insegurança é o problema de fundo, tratar apenas o corpo, sem olhar para a ansiedade que a originou, tende a criar dependência em vez de solução.
De onde vem essa pressão por desempenho
A literatura aponta alguns fatores que se repetem com bastante consistência quando o assunto é disfunção erétil e ansiedade sexual entre jovens:
A ansiedade de desempenho. É, hoje, um dos fatores mais citados nos estudos sobre o tema. Ela nasce, em grande parte, de expectativas pouco realistas sobre o que é "um bom desempenho sexual" expectativas que os próprios jovens relatam ter absorvido antes mesmo de viverem suas primeiras experiências.
O consumo de pornografia. Diversas pesquisas relacionam o uso frequente de conteúdo pornográfico a comparações irreais de corpo, tempo de relação sexual e reação do parceiro ou parceira, o que alimenta um ciclo de insatisfação com a própria experiência real. Psicólogos e sexólogos brasileiros vêm alertando que esse consumo, quando se torna a principal referência de sexualidade de alguém, tende a diminuir o interesse por relações reais e aumentar a ansiedade durante o sexo, não porque a pornografia seja, em si, um problema, mas porque ela cria um padrão de comparação impossível de sustentar na vida real.
A pressão social em torno da masculinidade. Estudos apontam que redes sociais e círculos de amizade reforçam a ideia de que desempenho sexual é uma métrica de valor pessoal, quase um placar a ser batido. Isso tem um nome que aparece na literatura como "doping sexual": o uso de substâncias e dispositivos não para tratar uma disfunção real, mas para tentar alcançar um padrão de performance idealizado.
A comunicação de casal. Um dado que considero especialmente relevante: pesquisas mostram que a falta de diálogo sobre expectativas sexuais dentro do relacionamento aparece repetidamente nas histórias de jovens com queixas de disfunção erétil. Ou seja, o problema muitas vezes não está isolado no corpo de uma pessoa, mas na qualidade da conversa (ou da falta dela) entre duas pessoas.
Isso ajuda a explicar por que um medicamento, sozinho, raramente resolve. Ele pode até aliviar o sintoma pontualmente, mas não toca na causa.
Os riscos que ficam invisíveis
Uma parte importante e pouco falada dessa história, são as consequências do uso contínuo e sem acompanhamento médico.
No campo físico, o uso desses medicamentos sem indicação pode gerar efeitos adversos cardiovasculares, principalmente quando combinados com álcool ou outras substâncias, uma combinação bastante comum em contextos de festas e encontros casuais, que é justamente onde esse uso recreativo mais acontece, segundo os estudos revisados. Dispositivos mecânicos, como anéis de constrição e bombas a vácuo, também trazem riscos quando usados sem orientação adequada, podendo causar desde desconforto até lesões nos tecidos.
Mas o efeito que mais me preocupa, como profissional da saúde mental, é o psicológico: a criação de uma dependência de que "sem o remédio, não dá conta". Pesquisas descrevem esse fenômeno como uma espécie de tolerância psicológica, a pessoa passa a acreditar, de forma cada vez mais rígida, que não é capaz de ter uma relação sexual satisfatória sem apoio químico. Isso tende a aumentar a ansiedade em vez de reduzi-la, alimentando exatamente o ciclo que a pessoa está tentando evitar.
E há ainda um efeito sobre a autoestima e sobre a intimidade nos relacionamentos: quando o corpo passa a depender de uma substância para "funcionar", a confiança da pessoa em si mesma, fora do contexto químico, tende a diminuir. Isso pode se refletir também fora do quarto, em como essa pessoa se relaciona no trabalho, com amigos, em outras áreas da vida.
O verdadeiro problema não é o remédio e sim o vazio de informação
Se reunirmos tudo o que a ciência da informação e a psicologia já observaram sobre esse tema, chegamos a um ponto em comum: o uso recreativo desses medicamentos não é, na maioria dos casos, uma escolha informada. É, muitas vezes, a solução mais visível e mais fácil de encontrar dentro de um ecossistema de informação bagunçada, onde conselhos de pares e vídeos virais pesam mais do que orientação profissional.
Isso é sério e diferente de "falta de informação". É a circulação ativa de informação incompleta ou distorcida o que os pesquisadores chamam de fluxo de desinformação, competindo, e muitas vezes vencendo, contra fontes qualificadas. Enquanto uma consulta médica ou uma sessão de terapia exige tempo, vulnerabilidade e, às vezes, coragem para admitir uma insegurança, um vídeo nas redes promete uma solução em trinta segundos. Não é difícil entender por que tantos jovens escolhem o caminho mais curto, mesmo que ele não resolva, de fato, nada.
O que ajuda de verdade
Se você reconheceu alguma dessas questões em si mesmo, ou em alguém que você conhece, vale saber: disfunção erétil em jovens raramente é "só física". E isso, na verdade, é uma boa notícia, porque significa que existe caminho para tratar, e não apenas para mascarar.
Alguns pontos que costumam fazer diferença real:
Entender a origem da ansiedade, em vez de tentar eliminar o sintoma imediatamente. Ansiedade de desempenho, quadros de ansiedade generalizada ou episódios de baixa autoestima costumam responder muito bem a acompanhamento psicológico, especialmente quando o profissional tem formação específica em sexualidade.
Reavaliar a relação com a pornografia, não com culpa, mas com curiosidade genuína sobre como ela está moldando as próprias expectativas.
Investir na comunicação com o parceiro ou parceira. Boa parte da insatisfação sexual relatada por jovens nasce do silêncio sobre o que cada um sente, deseja ou teme e não necessariamente de uma limitação real do corpo.
Buscar avaliação médica antes de qualquer automedicação, principalmente porque sintomas de disfunção erétil em pessoas jovens às vezes indicam questões de saúde física que merecem investigação (como fatores cardiovasculares, hormonais ou metabólicos), e não apenas questões emocionais.
Considerar terapia sexual ou psicoterapia, especialmente abordagens que unem escuta psicológica com técnicas específicas de saúde sexual. É um processo, não uma solução instantânea, mas costuma trazer resultados muito mais duradouros do que qualquer atalho farmacológico.
Uma conversa que vale mais do que uma pílula
Talvez o ponto mais importante deste texto seja este: sentir insegurança sobre desempenho sexual não é sinal de fraqueza, nem motivo de vergonha. É extremamente comum, especialmente numa geração que cresceu bombardeada por padrões impossíveis de masculinidade, sexo e sucesso.
O que realmente ajuda não é silenciar esse desconforto com um comprimido comprado sem receita, mas entender de onde ele vem e, muitas vezes, isso significa simplesmente ter uma boa conversa: consigo mesmo, com quem se ama, ou com um profissional preparado para escutar sem julgamento.
Se esse tema faz sentido para você, ou para alguém da sua vida, saiba que buscar ajuda profissional é um passo de autoconhecimento, não de "consertar um defeito". Fico à disposição para conversar sobre isso, seja no consultório, seja através dos atendimentos online.
Este texto tem caráter educativo e não substitui avaliação médica ou psicológica individual. Se você está enfrentando dificuldades relacionadas a desempenho sexual, ansiedade ou uso de medicamentos sem orientação, procure acompanhamento profissional qualificado.
Fontes consultadas: revisão integrativa "A 'Medicalização' da Performance Sexual entre Homens Brasileiros de 18 a 30 Anos" (Asklepion: Informação em Saúde, 2026); reportagens e posicionamentos da Sociedade Brasileira de Urologia sobre uso recreativo de inibidores de PDE5 (2025-2026); estudos e entrevistas com psicólogos e sexólogos brasileiros sobre pornografia, ansiedade sexual e saúde mental masculina (2025-2026).
