Pornografia, misoginia e adolescência: o que está sendo ensinado aos nossos meninos?


O combate à misoginia ganhou novos desdobramentos em 2026 com o Projeto de Lei 896/2023, que tem como objetivo criminalizar a misoginia equiparando-a ao crime de racismo, fortalecendo discussões a respeito do assunto. A proposta legislativa amplia o debate público acerca das violências de gênero, compreendendo a misoginia como manifestação de discursos de ódio e condutas discriminatórias expressas por meio de violência verbal, humilhação, exposição pública e incitação à violência contra mulheres (Brasil, 2023)
A misoginia constitui um fenômeno social complexo e estrutural, manifestando-se de múltiplas formas. O termo abrange dimensões como aversão às mulheres, dominação masculina, discurso essencialista sobre a mulher, recusa ao feminino, patologia do desprezo contra as mulheres, violência, preconceito e fala difamatória dirigida às mulheres, além de desprezo e inveja da capacidade reprodutiva (Souza; Petroli; Magalhães, 2022). Tal compreensão permite analisar a misoginia para além de atitudes individuais, entendendo-a como fenômeno socialmente produzido e reproduzido em diferentes espaços de socialização, inclusive no ambiente digital.
Nos últimos anos, o crescimento das interações mediadas por tecnologias digitais ampliou o acesso de adolescentes a conteúdos relacionados à sexualidade, incluindo a pornografia online. Em março de 2026, durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado Federal, a juíza Vanessa Cavalieri discutiu o recrutamento de jovens por organizações criminosas e a influência do ambiente digital sobre crianças e adolescentes. Na ocasião, ao ser questionada sobre a cultura de violência de gênero nas redes, a magistrada relacionou o crescimento da misoginia entre adolescentes ao consumo precoce de "pornografia industrial" (Brasil, 2026). Embora essa discussão emerja em um contexto político e institucional, ela evidencia a crescente preocupação social acerca das formas pelas quais adolescentes têm construído referências sobre gênero, sexualidade e relações afetivas no ambiente digital.
O conceito de "pornografia industrial" mencionado pela magistrada converge para a noção acadêmica de pornografia mainstream, compreendida como produção pornográfica de circulação massiva orientada pelas normas sociais de gênero dominantes (Guimarães, 2023). Segundo a autora, tais conteúdos são organizados a partir de um "gosto erótico coletivo" atravessado por relações desiguais de gênero, frequentemente reproduzindo papéis tradicionais, objetificação feminina e dinâmicas de dominação e submissão.
Estudos recentes têm apontado que o consumo de pornografia pode contribuir para a construção e legitimação de concepções sexistas e misóginas, particularmente durante a adolescência. Lima-Santos e Santos (2022) destacam que a pornografia não se restringe ao âmbito da sexualidade individual, mas participa de processos mais amplos de socialização, por meio dos quais são produzidos e compartilhados significados sobre gênero, poder e relações afetivas. De forma complementar, Guimarães (2023) argumenta que grande parte da pornografia de circulação massiva reproduz normas de gênero hierarquizadas, marcadas pela objetificação feminina, pela naturalização da submissão das mulheres e manutenção de estereótipos sexuais.
No ambiente digital, essas representações encontram ressonância em comunidades masculinistas, como os grupos Red Pill e Incels, que mobilizam discursos de hostilidade às mulheres e reforçam modelos rígidos de masculinidade, ampliando a circulação e a legitimação de conteúdos misóginos. Nessa direção, Assis (2024) ressalta que o consumo recorrente desses conteúdos pode influenciar a consolidação de crenças e representações sobre gênero e sexualidade, particularmente durante a adolescência — período marcado pela intensa construção de referências identitárias, afetivas e relacionais.
O amplo acesso de adolescentes brasileiros a conteúdos pornográficos tem sido evidenciado por dados recentes. Em 2022, o Brasil ocupava a décima posição no ranking global de acessos à plataforma Pornhub (Guimarães, 2023). Em relatório posterior, o Pornhub Insights (2025) indicou que o país passou a ocupar a quarta posição mundial em número de acessos ao site. Esses dados evidenciam a crescente presença da pornografia digital no cotidiano contemporâneo e apontam para a necessidade urgente de compreender os impactos subjetivos, sociais e culturais desse consumo entre adolescentes.
No campo da Psicologia, a exposição precoce à pornografia tem suscitado debates acerca da construção de concepções sobre sexualidade, gênero e relações afetivas durante o desenvolvimento. O contato recorrente com conteúdos sexualmente explícitos pode influenciar os modos pelos quais adolescentes interpretam experiências afetivas e sexuais, produzindo referências simbólicas sobre masculinidade, feminilidade e práticas relacionais (Assis, 2024).
Sob a perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural, o desenvolvimento psíquico ocorre a partir das relações sociais e das mediações simbólicas presentes na cultura. Conforme aponta Zanella (2004), o sujeito se constitui nas relações estabelecidas com o contexto histórico e social em que está inserido, produzindo significações mediadas pelos elementos culturais disponíveis em seu cotidiano. Dessa forma, os conteúdos consumidos no ambiente digital atuam como mediadores simbólicos na constituição de sentidos sobre gênero, sexualidade e relações interpessoais — especialmente durante a adolescência, fase em que tais significações encontram-se em intensa elaboração.
Os estudos analisados convergem ao apontar a educação sexual como importante estratégia para o desenvolvimento de posicionamentos críticos diante dos conteúdos consumidos no ambiente digital (Guimarães, 2023; Assis, 2024). A relevância dessa discussão também se relaciona diretamente aos índices de violência contra mulheres no Brasil. De acordo com o Mapa da Segurança Pública de 2025, Manaus ocupa a terceira posição entre os municípios brasileiros com maiores índices de feminicídio (Brasil, 2025), evidenciando a permanência de relações estruturadas por profundas desigualdades de gênero.
O que podemos fazer?
A misoginia é um problema estrutural da nossa sociedade. Antes de uma mulher sofrer um feminicídio, ela sofre a misoginia, em casa, na rua, nos relacionamentos, nas redes. Por isso esse tema é tão urgente.
A educação afetivo-sexual é a base dessa mudança. Diferente do que muitos pensam, ela vai muito além das funções biológicas. Trabalhamos para que crianças e adolescentes conheçam seus sentimentos e aprendam a lidar com as frustrações que eles trazem. Grande parte da misoginia nasce exatamente aí: na dificuldade que meninos têm de responsabilizar a si mesmos pelo que sentem, transferindo para as meninas a culpa pelas próprias frustrações.
Se você se reconheceu nesse texto, seja como alguém que viveu ou vive situações de misoginia, seja como mãe, pai ou educador preocupado com adolescentes ao seu redor, saiba que buscar atendimento psicológico é um passo concreto e necessário. A psicologia oferece ferramentas para compreender essas dinâmicas, sair de ciclos que nos aprisionam e construir relações mais saudáveis e igualitárias.
Referência Bibliográfica
Assis, D. C. M. de. (2024). O impacto da pornografia online na saúde dos adolescentes. Research, Society and Development, 13(6), e7013646037. https://doi.org/10.33448/rsd-v13i6.46037
Brasil. (2023). Projeto de Lei nº 896, de 2023: Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, para dispor sobre crimes praticados em razão de misoginia. Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/156025
Brasil. (2025). Mapa da Segurança Pública 2025. Ministério da Justiça e Segurança Pública. https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-seguranca/seguranca-publica/estatistica/download/dados-nacionais-de-seguranca-publica-mapa/mapa-da-seguranca-publica-2025.pdf
Brasil. Senado Federal. (2026, 10 de março). CPI do Crime Organizado: oitiva da juíza Vanessa Cavalieri [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/live/MbC6Jrkwukw
Guimarães, S. da S. (2023). Educação sexual e letramento para interação de jovens brasileiros com conteúdos digitais explícitos: Um estudo qualitativo [Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul]. TEDE PUCRS. https://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/11371
Lima-Santos, A. V. de S., & Santos, M. A. dos. (2022). Incels e misoginia on-line em tempos de cultura digital. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 22(3), 1081–1102. https://doi.org/10.12957/epp.2022.69802
Pornhub. (2025). 2025 Year in Review – Pornhub Insights. https://www.pornhub.com/insights/2025-year-in-review
Souza, L. K. D. (2019). Pesquisa com análise qualitativa de dados: conhecendo a Análise Temática. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 71(2), 51–67. https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/245380/001129530.pdf?sequence=1
Thiollent, M. (1986). Metodologia da pesquisa-ação (2ª ed.). Cortez; Autores Associados.
Tomaz de Souza, L., Petroli, D. P., & Nascimento Magalhães, L. V. (2022). A Lei Lola e os usos acadêmicos da misoginia no Brasil. Revista Paradigma, 31(2), 231–257. https://revistas.unaerp.br/paradigma/article/view/1482
Zanella, A. V. (2004). Atividade, significação e constituição do sujeito: considerações à luz da psicologia histórico-cultural. Psicologia em Estudos, 9(1), 127–135. https://doi.org/10.1590/S1413-73722004000100016
